A inclusão da comunidade LGBTQIA+ no mercado de trabalho tem sido uma pauta amplamente discutida atualmente no Brasil e em todo o mundo. O tema é delicado e exige muita sensibilidade por parte das empresas, já que, apesar dos inegáveis avanços nas últimas décadas, muitos profissionais ainda optam por não revelar quem realmente são por medo de não serem aceitos dentro das organizações.

Um dos maiores desafios é garantir oportunidades igualitárias de desenvolvimento e crescimento na carreira para essas pessoas, independentemente da orientação sexual ou identidade de gênero. Nos últimos anos essa discussão ganhou força e muitas empresas começaram a se posicionar publicamente e se tornaram referência em ações e iniciativas que incluam lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais em suas equipes e cargos de chefia.

Além da constante demanda por aceitação, inclusão e sensibilidade com a causa, as grandes empresas notaram que esse engajamento traz muito mais do que o retorno financeiro, reflete a consciência, empatia e o alinhamento dos negócios com um dos temas mais relevantes do mundo. O ato de incluir também promove transformações significativas, já que os consumidores estão cada vez mais conscientes sobre o que compram ou contratam, aumentando a exigência por marcas que estejam de fato comprometidas com a responsabilidade social.

Formada em Gestão de RH, a analista da Across, Jéssica Cristina de Araújo Machado, explica as vantagens que a contratação de profissionais LGBTQIA+ pode proporcionar.

“Nós podemos destacar a melhoria do clima organizacional. Um ambiente saudável, onde as pessoas se sentem respeitadas, onde elas se sentem bem, ocasiona uma maior produtividade, consequentemente uma possível redução no turnover [rotatividade de pessoal] e nós também podemos olhar para o aumento da criatividade. Através dos olhares, de pontos de vista diferentes, já que as vivências pessoais colaboram positivamente para a organização, existe a possibilidade da construção de soluções inovadoras, de se trazer mais consistência nos insumos para uma tomada de decisão. Nós podemos olhar também para aquele sentimento de pertencimento, para aquele sentimento de dono. Os profissionais tendem a se engajar mais num ambiente que eles se sintam acolhidos, respeitados, onde as escolhas deles são respeitadas e realmente eles são valorizados enquanto os profissionais que são”, explica Jéssica.

Durante todo o mês de junho, que marca o movimento do Orgulho LGBTQIA+ no Brasil e em várias partes do mundo, foram realizados inúmeros eventos e manifestações que buscaram defender a diversidade, o respeito integral aos seus direitos e mais representatividade para essa população nos mais diversos setores da sociedade. Mais do que fortalecer a imagem da companhia e seus resultados, a contratação desses profissionais também gera mais visibilidade para a cultura organizacional, que têm sua filosofia alinhada ao desenvolvimento e às demandas da sociedade.

Se enfrentar os desafios do mercado de trabalho já é difícil, para essa parcela da população é ainda maior. Embora existam ações e um movimento visando a contratação de pessoas desses grupos, na prática muitos profissionais LGBTQIA+ ainda enfrentam obstáculos e sofrem com a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero. É o que revelam as pesquisas e levantamentos liderados por empresas de consultoria e entidades representativas.

A consultoria de engajamento Santo Caos, realizou uma pesquisa que mostrou que 61% dos funcionários LGBT’s no Brasil escolhem esconder de colegas e gestores a sua orientação sexual por receio de represálias e possíveis demissões.Outro levantamento, feito pelo projeto Demitindo Preconceitos, apontou que 38% das empresas brasileiras têm restrições para contratar lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais também em razão da sexualidade e da identidade.

Encabeçada pelo Center for Talent Innovation, uma pesquisa constatou que33% das empresas existentes no Brasil não contratariam pessoas LGBTQIA+ para cargos de chefia e 41% dos funcionários LGBTQIA+ afirmam já terem sofrido algum tipo de discriminação no ambiente de trabalho.

Por isso, as campanhas de conscientização têm um papel fundamental na inserção e aceitação dessas pessoas no mercado de trabalho. Cabe às empresas tratar todos igualmente, independemente da opção sexual. Atos de preconceito devem ser denunciados às autoridades competentes e os responsáveis punidos. Se cada um fizer sua parte, prezando pelo respeito e pela igualdade, todos poderão fazer suas escolhas sem sofrerem com isso.

Vivência e experiências profissionais

Diante da importância desse tema, a Across convidou três profissionais LGBTQIA+, de diferentes áreas de atuação, para um bate papo. Eles compartilharam um pouco das suas vivências, tanto no âmbito pessoal, quanto profissional. Olha só:

Renan Ruiz – ator

Ao longo de sete anos, Renan Ruiz exerceu funções na sua área de formação, a de produção audiovisual. Hoje, aos 31, se dedica à carreira de ator. Sem se identificar e desconfortável com o sexo biológicio com o qual nasceu, o feminino, passou pelo processo de transição de gênero. Foram alguns anos e um longo caminho percorrido até que toda a mudança fosse, de fato, concluída.

“Quando eu me descobri trans foi assustador, mas eu tirei um peso dos meus ombros. O lado bom foi que eu descobri quem eu realmente era e, quando eu descobri, tudo fez sentido. Mas ao mesmo tempo foi: caramba e agora? O que eu vou fazer com essa informação? É isso que eu quero pra minha vida, mas pra ser o que eu sou, perante a sociedade, eu vou ter que enfrentar muita coisa. E como vai ser isso? Como vai ser no meu emprego? Como eles vão lidar com isso? Nos meus relacionamentos? Na minha família?”, relembrou.

Renan contou que, no início do processo de transição para o gênero masculino, optou pela discrição e pouco falou sobre o tema no ambiente de trabalho.

“Eu simplesmente deixei as coisas acontecerem. Só avisei os amigos mais próximos. Quando comecei a aplicar os hormônios a minha voz começou a mudar bastante. Então as pessoas foram notando. Um colega de trabalho me questionou: ‘nossa, você está sempre gripada? Está sempre rouca?’ Só respondi: pois é, né? Era minha voz mudando, meu corpo mudando para a forma masculina. Eu nunca cheguei pra ninguém e disse o que estava acontecendo. Só comentei quando mudei minha documentação, eu deixei de ser Tatiane e passei a ser Renan”, disse

Apesar de ter tido certo apoio ao longo do processo de transição – que inclui inúmeros tratamentos hormonais, cirúrgicos, fonoaudiológicos, entre outros para transformar suas características no gênero desejado – Renan afirma que o preconceito ocorria de forma velada na empresa onde trabalhava na época.

“Na minha frente era tudo ok, mas por trás a gente sabia qual era o pensamento. Eu descobri pelas redes sociais de uma pessoa muito próxima a mim na época, que trabalhava no mesmo departamento, alguns posts homofóbicos”, explicou o ator.

Renan acredita que ainda há um caminho longo a percorrer. Embora exista um movimento no mercado de trabalho quando o assunto é o grupo LGBTQIA+, a inclusão continua sendo um tabu no mundo corporativo.

Uma vez, antes de passar pela transição, eu fui a uma entrevista de emprego ‘toda menininha’. Não era a forma como eu me vestia, mas fiz isso para me darem a oportunidade desse trabalho. Se eu fosse no meu estilo – na época uma mulher lésbica, eu tenho certeza que não seria contratado. Então a gente tem que dar uma de ator às vezes, literalmente. É complicado. O que precisa mudar é a mentalidade das pessoas para verem que, ser uma pessoa diferente de você, não é errado. Você pode não concordar, mas você tem que respeitar. A sexualidade de uma pessoa só diz respeito a ela. Falta empatia”, finalizou.

Kamila Feldenheimer – chef de cozinha e empreendedora

Formada em Publicidade e Propaganda, Kamila Feldenheimer, de 33 anos, atuou por oito anos na área. Ela já trabalhou em agência de publicidade e em uma emissora de TV, além de uma empresa de telemarketing. Kamila conta que, em poucos lugares onde atuou revelava sua orientação sexual.

“Em nenhum ambiente eu me senti à vontade para expor. Só um ou outro colega, pessoas mais próximas. Você nunca sabe como eles vão reagir, como o seu chefe vai reagir. A gente tem medo de ser mandado embora, por exemplo. Eu não vivia a liberdade de ser eu mesma. Só me assumi quando decidi empreender”.

Kamila namora há seis anos a também empreendedora Beatriz Wenzel. Juntas, elas estão à frente de uma loja física e também de uma loja online que tem como foco a venda de alimentos como carnes vegetais e embutidos, doces, bebidas e leites vegetais, além de produtos de higiene pessoal.

“Quando você diz que é homosexual parece que automaticamente você está 10 degraus abaixo. Todos os dias você tem que provar a sua capacidade, que você é capaz de executar o seu trabalho como qualquer outra pessoa. Também enfrento isso por ser mulher. Isso nos cansa, chega uma hora que cansa”, revelou a empreendedora.

Maria Luiza Zago – empreendedora

Bióloga por formação, Maria Luiza Zago, de 37 anos, se realizou profissionalmente em outra área, mas não distante dos animais. Ao longo de sua carreira profissional, já desempenhou funções diferentes em concessionária de veículos, lojas de shopping, escritório de advocacia, mas sentia que ainda não era ali o seu lugar. Até que, por sugestão da esposa e então namorada na época, começou a atuar como dog walker, profissional que presta serviço de passeio com cães.

Após inúmeros cursos e treinamentos na área, em dezembro de 2021, ela e a companheira, a personal trainer Bruna Santos, inauguraram um espaço específico onde oferecem também os serviços de  hospedagem e creche para pets em Bauru, interior de São Paulo.

“Quando a sua família te aceita, o resto você não quer nem saber. Não liga, sabe? Mas claro que, quando eu era mais nova e trabalhava em empresas privadas, a insegurança era maior de falar sobre minha orientação sexual no ambiente de trabalho porque, a sociedade, de certo modo,  impõe que a gente fale sobre nossas escolhas”, contou.

“Como trabalho como autônoma já há alguns anos, sempre tive a sorte de ter clientes muito bacanas, nunca sofri preconceito e nem precisei provar minha capacidade e a qualidade do serviço que ofereço ou me justificar sobre algo tão pessoal. Mas é nítido que no geral as pessoas têm um pré-conceito, julgam sem saber. Falta empatia e isso precisa ser mudado”, afirmou a empreendedora.

Entenda o movimento e o significado da sigla

O episódio tido como ‘marco zero’ do movimento e da sigla que conquistou o mundo foi registrado em 28 de junho de 1969, nos Estados Unidos, quando gays, lésbicas, travestis e drag queens enfrentaram policiais e iniciaram uma rebelião que lançaria ali as bases para a luta pelos direitos dessa parcela da sociedade (rebelião de Stonewall). O termo LGBTQIA+ foi aprovado no Brasil em 2008 após uma conferência para debater os direitos humanos e as políticas públicas voltadas a essa comunidade.

Cada letra representa um grupo de pessoas e a sigla é usada para definir:

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